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Monday, March 21, 2016

RECEITAS DE VIDA----MARGARIDA NETO ENTREVISTADA POR FERNANDO ALVES






RECEITAS DE VIDA----MARGARIDA NETO

Fernando Alves: Margarida Neto é psiquiatra na Casa de Saúde do Telhal, o maior hospital psiquiátrico do país, onde coordena o serviço de alcoologia. Quer na primeira linha de acção médica, quer nas várias frentes de educação cívica de que não abdica, a família é a grande motivação da sua cidadania activa. Desde muito nova quis ser médica, foi isso que desejou, aliás, para a sua vida e desde o primeiro dia do curso de medicina essa descoberta foi um continuado prazer, mesmo se o estudo da anatomia se revelou mais da ordem do pesadelo do que do deslumbramento.

E como é que foi tacteando o caminho a seguir? As escolhas no início do curso? Margarida Neto admite que foi muito condicionada pelos professores que frequentou: gostava de cardiologia, de ortopedia, pediatria…a psiquiatria vem mais adiante. Passa dois anos no internamento geral nas Caldas Da Rainha e vai definindo as escolhas. Descobre que não tem jeito de mãos para a cirurgia. Como é que se percebe isso?

Margarida Neto: Uma vez estava a ajudar uma cesariana e o colega obstetra disse:

-Bem, para ser isto, preferia estar sozinho.

E portanto a gente tem que engolir e perceber… não é bem por aqui…depois eles começaram a pedir-me coisas de maior paciência que era falar com as pessoas, ouvir as pessoas, as situações de mais solidão, em horas nocturnas do hospital. Eu tinha de facto mais paciência do que os outros, e depois há um episódio que é um clique para a psiquiatria…há um episódio que não é brilhante, não é?… eu estava em Sinitana, (estive a fazer valência na Sinitana) e pediram-me para fazer uma história clínica, portanto a equipa médica em termos gerais… e foi a minha vez de fazer a história.

E quando começo a descrever o doente, digo que o doente tem… é da religião católica. No final da história o chefe da equipa perguntou-me, muito zangado, porque é que eu tinha perguntado a religião à pessoa e eu disse que achava que era importante na identificação não saber só o nome, mas também a cultura do doente, ou lá, os valores do doente, as referencias do doente, para entender a vida do doente… e o chefe diz-me:

-Não está a perceber nada. Nós somos como mecânicos de automóveis. Os carros vão para as oficinas e os doentes vêm para aqui.

E eu olhei para ele e fiquei …fiquei estarrecida. Eu acho que… houve aqui, um clamor dentro de mim em que percebi: não foi para isto que eu vim para a medicina. Não quero ser mecânico de automóveis, mecânico de órgãos. É noutras coisas que eu gostaria de ajudar as pessoas e para as quais acho que tenho mais vocação, ainda que eu gosto da medicina, muito de medicina e… de suturar cabeças…e dos gestos de urgências. Fiz urgências durante muito tempo, portanto gosto daquela azáfama…

Fernando Alves: Gosta de suturar cabeças…?

Margarida Neto: Gosto…gostava. Agora já não. O frenesi das urgências. Chegarem macas…a urgência. O ter que agir…ter que agir, tem muito a ver comigo. E isso persiste, mas de toda essa urgência, realmente onde eu acho que o desafio se coloca mais do que tudo, é no encontro de pessoa a pessoa com o doente. E isso não é…não é da medicina, da medicina interna ou da cirurgia…sobretudo da cirurgia não…descobri que seria a psiquiatria.


E portanto… depois juntaram-se várias coisas. Eu na altura do internado geral também fiz um curso de educação sexual, planeamento familiar, muitas coisas da conjugalidade, os temas da família e por isso foi-se tudo juntando num puzzle e a dada altura quando se pôs a questão eu queria mesmo ir para a psiquiatria mais do que qualquer outra coisa.

Fernando Alves: E assim inicia um percurso no qual a todo o tempo se cruzam a acção médica e a intervenção cívica. O conceito de urgência, a ideia de família, a ideia de serviço, a disponibilidade para os outros.

Margarida Neto: Está aqui a pensar onde isso começa, não é? Acho que começa no meu pai. Tenho o meu pai com 91 anos, que sempre se apresentou como funcionário público. Há muito pouco tempo fomos ao médico de família e o médico perguntou-lhe o que é que ele… qual era a profissão e ele disse, “era” funcionário público, tornou a dizer funcionário público, sem mais, sem cargo algum. E esta ideia do funcionário público ao serviço… na comunidade em que vivemos, com respeito pelas coisas públicas e pelo serviço aos cidadãos, acho que me marcou para sempre.

Depois na adolescência fui de…da Associação Das Guias de Portugal, em paralelo com os Escuteiros só para raparigas, fui dirigente, fui comissária, tive até quase a ser presidente. E perto…desde para aí…desde os 16 anos, 15, 16, foi assim que eu vivi a adolescência. Sempre com a ideia de que é preciso deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos. Eu acho que isso tem sido uma marca, quem me conhece sabe que é assim. Isto sem arrogância nenhuma, não estou a dizer isto com arrogância, quer dizer, até como exigência sobre mim, fui educada para ser assim, portanto tenho mais é que pôr os talentos que porventura tenha, ao serviço das outras pessoas e sinto-me mal quando não é assim.

Fernando Alves: A intervenção social de Margarida Neto é muito marcada pelas suas convicções religiosas, mas a psiquiatra recusa qualquer abordagem confessional. Hoje não perguntaria…hoje, não pergunta a nenhum paciente, se tem uma dada orientação religiosa.

Margarida Neto: Não, não, não. Já não pergunto. Não preciso perguntar. Se acaso são eles que me perguntam a mim. Não?! Não e sim! Quer dizer, acho que é importante a questão da religião, ou das referências culturais, ou dos valores que as pessoas têm, é essencial numa terapia, ou num acompanhamento de um doente.

Fernando Alves: Em que sentido é que é importante?

Margarida Neto: Porque as balizas, os valores, o que é importante, as prioridades na vida de uma pessoa, (e eu sou psiquiatra, portanto acompanho isso) o tipo de sofrimento que a pessoa tem, prende-se com a coerência da sua vida. Se se está a viver de acordo com aquilo que se tinha pensado para a sua vida, sonhado, ou se se está perto ou longe desse sonho de vida, isso é muito importante.

Fernando Alves: Em que é que pode ser importante?

Margarida Neto: Ter fé, seja em que religião for, faz alguma diferença entre as pessoas.

Fernando Alves: Não bastará ter fé na ciência, ter fé no médico a quem me dirijo para que me resolva o problema?

Margarida Neto: Eu a isso não chamo fé, chamo confiança. Chamo, acreditar. E a medicina e a psiquiatria e muitas das coisas que eu faço na minha actividade, se não há confiança na relação médico doente são perdidas. Mesmo os medicamentos que nós damos em psiquiatria, eles têm uma subjectividade grande, podem ter um efeito placebo grande e portanto eu aprendi com os meus colegas mais velhos e na prática clinica, não é só os medicamentos que damos mas é, (uma expressão muito bonita) “a mão que dá o medicamento”. A mão que dá o medicamento também cura ou ajuda a curar. Isto tem a ver com a confiança, com respeito pelo médico… do médico pelo doente e do doente pelo médico…não chamo a isto, fé. A fé, chamo-a outra coisa.

Fernando Alves: Um assunto seu, ou um assunto do paciente. Podem ou não vir à tona em um dado momento da relação?

Margarida Neto: Não ali de partida, mas numa relação estabelecida com alguém que nós acompanhamos porventura há anos, a questão de acreditar no sentido da vida, no que há para além da morte, o que é perder alguém, a maneira de fazer um luto, a esperança que se tem de um dia reencontrar, o sentido das coisas que fazemos, o bem e o mal, isto tem a ver com a cultura do doente não só…, da pessoa, (tirando a palavra doente para não carregar na doença) mas a minha vida é fundamentalmente encontrar muita gente nos dia a dia de todos os dias.

Fernando Alves: E essa condição religiosa ou não, do doente pode acentuar ou atenuar o peso daquela doença concreta?

Margarida Neto: Sim. Quando se fala no sentido do sofrimento, no sentido da dor, a resignação. Estou a falar de várias dores. Eu sou psiquiatra. Uma das razões pelas quais fui para psiquiatria (agora esqueci-me, acho que vou refazer o nó, se não se importa) é que a dor que mais me aflige, mais me inquieta, mais puxa por mim no sentido de tentar ajudar alguém é a dor psicológica. Não é a dor de cabeça. A dor de cabeça pode ser muito difícil, mas é mais fácil de tratar. A gente com Ben-U-Ron, trata a dor de cabeça, a não ser que ela seja expressão de um outro sofrimento e tantas vezes, é do cansaço físico psicológico.

Portanto a dor que puxa a minha actividade de todos os dias é a dor psicológica, é o sofrimento. E o sentido desse sofrimento com pessoas com fé, que são capazes até de rezar, é diferente de quem não acredita. Isto não se chama resignação, chama-se pegar na dor e transformá-la.

Fernando Alves: Ora quer no Telhal, quer no consultório de Margarida Neto onde conversamos, a dor humana bate à porta entra e senta-se, todos os dias. Podemos pensar que um psiquiatra já viu tudo nesse domínio, mas por mais calejado, o psiquiatra expõe-se a todo o tempo ao embate inesperado e perturbador da mais surpreendente expressão de dor humana. Um embate sempre violento.

Margarida Neto: É tão violento quanto encantador. Ou seja, não há doenças, há doentes. E portanto eu trabalho num hospital com cerca de 500 doentes mentais…500 doentes mentais…e converso com eles todos os dias na rua, no bar, nas unidades e portanto há expressões que provavelmente cada vez me afligem menos, porque há uma rotina do dia a dia e passamos a encarar os delírios e alucinações com mais, não vou dizer com frieza, mas com mais capacidade de encaixe, não é?

E há os outros sofrimentos dos doentes que vêm à consulta externa e que são…e que eu atendo aqui no consultório e que são outro tipo de sofrimento, não é? Que são as coisas mais… que nós diríamos comezinhas, mas que são o sofrimento do dia a dia…o sofrimento do quotidiano.

Fernando Alves: E tal como há pobreza envergonhada, também há sofrimento escondido?

Margarida Neto: Há mesmo muito sofrimento escondido. A depressão é escondida. Algumas pessoas acham que ter uma depressão é um luxo. E é-lhes difícil (porque a dor física é mais fácil de apresentar), é muitas vezes, para muita gente difícil apresentar o sofrimento psicológico. Que não se está bem…que se está cansado da vida…que os filhos…é difícil aturar os filhos e aturar o marido. Viver um quotidiano desgastante e as pessoas estão muito desgastadas, em particular as mulheres.

Perguntou-me se eu me surpreendia: sim! E quero-me surpreender todos os dias. Perder a capacidade de surpresa é viver como um robot, como se nada mais nos surpreendesse e nem sequer nos encantasse. Porque eu também gosto de me surpreender pelo encantamento de tantas histórias que os doentes contam, que me fazem pensar, que me fazem rever, que me confrontam com a minha própria vida. E isto é que é de um sentir muito profundo. Isto faz parte do privilégio que é ser psiquiatra.

Fernando Alves: mas refiro-me á surpresa que é um murro no estômago do próprio psiquiatra.

Margarida Neto: Olhe, agora a… uma da… quando nós encontramos...a primeira dificuldade, os doentes irem à consulta. Os doentes estão a ir menos à consulta, porque é cada vez mais difícil o acesso à consulta. Portanto as faltas dos doentes também me inquietam muito.

Fernando Alves: Isso tem a ver com a crise.

Margarida Neto: Com a crise, sim. Eu sou na psiquiatria sobretudo, uma alcoologista, não é?...Uma chaveta, outra chaveta, portanto coordeno o serviço de alcoologia, ou seja, grande parte do meu dia é tratar e acompanhar doentes e famílias de dependes do álcool, não é?, é difícil tratar um doente alcoólico, porque a motivação é frouxa. Porque apesar de se sentirem motivados a fragilidade para o álcool é muito grande.

Porque estão prisioneiros dum tóxico, porque aprisionam as famílias neste consumo, porque perdem o trabalho, porque adoecem fatalmente, porque conduzem com álcool e põem em risco a vida deles e dos outros. É uma actividade (a palavra surpreendente é sua), é uma actividade dura, esforçada e em que eu tenho de ter uma grande capacidade de frustração, porque a dependência do álcool, a maior parte das vezes os doentes recaem outra vez, portanto é trabalhar todos os dias a esperança de que vão ficar bem, a confiança em que vão ficar bem. Mas a batalha, quer dizer, é uma luta diária sobre a tentação, em que estão eles envolvidos e as famílias. E no meio disto tudo que é difícil, às vezes há consultas, dias de consulta muito difíceis, porque recaíram quase todos, eu continuo a olhar para aquele que ficou bom.

Aquele que está bem, que está abstinente, que reconstruiu a sua vida (eu costumo dizer isto), esse doente serve-me de alento para os 10 a seguir que estão mal. E não é por eu ser uma má profissional, é porque a doença é mesmo assim. E eu aí não tenho nenhum truque de magia, não tenho nenhuma técnica em especial; tenho bons resultados no serviço que coordeno, mas sei que sou impotente perante muitos.

Portanto nós também temos que ter aqui uma grande capacidade de humildade, que é eu não posso, em psiquiatria. Por isso é tao diferente de um cirurgião que abre a barriga, tira a vesícula põe outro órgão, a substituir. E eu só tenho a minha humanidade, algumas técnicas de me relacionar com o doente e depois uma…um encontro com aquela dificuldade…eu luto muito com os doentes, eu não desisto dos doentes.

Fernando Alves: Disse que há um decréscimo das idas às consultas de alcoologia o que é paradoxal, dado o aumento do consumo confirmado, aliás, nos últimos números da Sociedade Portuguesa de Alcoologia.

Margarida Neto: É um dado que se sabe até dos Centros de Saúde. As pessoas vão…e nos hospitais… as pessoas…estão a ir menos às consultas. Têm uma taxa moderadora grande para pagar, mas têm sobretudo dificuldades na deslocação. Portanto…ou têm passe…não tendo passe é muito difícil…custa muito dinheiro, para quem tem pouco, a deslocação às consultas. Portanto os hospitais atendem com menos pessoas, os centros também no Telhal também; portanto isso é uma constatação.

Em relação ao consumo de álcool todas as épocas de crise se acompanham de beber mais. Um doente alcoólico desesperado, um desempregado sem capacidade financeira para acudir e para as responsabilidades familiares, vai derreter-se e afogar as lagrimas na taberna ou no café e bebe e bebe e bebe.

Fernando Alves: Bebe para esquecer, diz a expressão popular. É literal.

Margarida Neto: Completamente literal. Todos os dias ouço essa frase. Mas porque é que bebe? Qual é a parte boa do álcool? A parte boa do álcool é poder esquecer. Durante aquele tempo não mato a cabeça, não me lembro de mais nada; o pior é o que vem a seguir. E depois parece que as coisas são mais vivas e estão lá todas. O que é que eu faço? Bebo mais a seguir.

Fernando Alves: Bebem para esquecer, não apenas porque mergulham nessa espécie de névoa. Na verdade o álcool afecta a memória.

Margarida Neto: Afecta a memória; quando é bebido cronicamente, vai matando neurónios e portanto há uma alteração profundíssima do sistema nervoso central do cérebro. Portanto são lesões orgânicas irreversíveis, portanto as alterações da memória são características do álcool.

Agora, nós vivemos num país vitivinícola, sendo de uma cultura agrícola importante em relação ao álcool, mas não precisamos de o beber todo, não é? Precisamos é de o exportar. E também, já agora aproveito para me referir a esta lei totalmente incoerente, que é a nova lei do álcool. Divide o álcool em dois, não é? O álcool que se pode beber aos 16 anos e o álcool que só se pode beber aos 18. Não há nenhuma comprovação científica em relação a isso e é claramente uma claudicação em relação aos interesses económicos vigentes.

A cerveja, os interesses da cerveja, venceram a sensatez e a luta em relação ao abuso e á dependência do álcool. Os jovens podem beber cerveja. Não podem consumir outra coisa, mas dos 16 aos 18 anos podem beber. Isto é um contra senso e eu estou mesmo muito zangada com esta questão.

Nós dissemos que o consumo do álcool a partir dos 18 anos era a marca certa, a etapa certa, como muitos outros países o fazem e como a evidência científica também defende e na altura em que defendemos isso foi-nos dito que ia ser difícil. Portanto já se anunciava que os interesses económicos relacionados com as cervejas iam dificultar esta decisão. E ficou assim portanto, o álcool dividido em dois: um que pode ser bebido aos 16 e outro que pode ser bebido aos 18.

Fernando Alves: E os jovens que na vertigem dos “shots”, caem em coma alcoólico e vão parar às urgências dos hospitais?

Margarida Neto: Esses jovens, que bebem para encher a cabeça, para matar a cabeça, encher a cabeça, muito intensamente numa noite, (é o” binge drinking”, que é beber várias bebidas de seguida) alguns deles vão-se tornar doentes alcoólicos e eu vou tê-los mais à frente.

Fernando Alves: Quanto aos que batem à porta do seu consultório no Telhal, a psiquiatra Margarida Neto, retém, entre os sinais mais perturbadores, aqueles que são sintomáticos de uma acentuada degradação física.

Margarida Neto: Quando o doente chega magro, em carestia, sem comer, (porque o álcool retira a vontade de comer) com cirroses hepáticas, com varizes esofágicas, portanto muito rapidamente sangrando e estando no limite da vida ou no limiar da morte, essas pessoas que ninguém dá nada por elas, porque eu trabalho no final da linha… portanto eu trabalho no hospital Instituto S. João de Deus, sector social muitas vezes com doentes que o sector público já enjeita.

E todos estes que lá chegam desta maneira e conseguem recomeçar um caminho são os doentes que me ensinam coisas, não é? Nós não podemos retirar a esperança a ninguém. E que um olhar de esperança sobre um doente que se apresenta muito mal, começa a contagia-lo de um efeito positivo. Os bêbados são mal vistos, são vistos de uma forma trocista; a gente pode rir-se com os bêbados, mas depois, não os apanha na berma da estrada. Muitos dos meus doentes são os da berma da estrada.

Fernando Alves: E acontece-lhe rir-se com eles?

Margarida Neto: O riso, a alegria faz parte do tratamento. Como o faz a zanga, como faz o: eh lá, ouça-me lá…ouça lá o que estou a dizer…não se distraia…não se distraia do que é importante. Tantas coisas que se passam na relação médico doente. Portanto quando um doente destes que vem em cadeira de rodas, que não sente o chão a andar, que vem da rua, um sem-abrigo, que já não tem ninguém e a gente recomeça.

Este ponto de recomeçar (nós vamos vendo aquela pessoa que nunca, na verdade perdeu a dignidade parece que não, pelo menos o meu olhar sobre ele, ou o olhar da instituição em que trabalho, luta por isso não é?), na maior das misérias há um homem, um ser humano. Um doente que fica bem, vai progredindo e deixa de beber e reconstrói a vida, graças a Deus, tenho tantos doentes assim. Tenho muitos que não ficaram assim, que morreram.

Tenho um doente, (vou contar esta história) um doente muito difícil, esta é uma história muito triste. Um doente difícil, vários internamentos, uma vez atá assaltou o gabinete de enfermagem para tentar encontrar alguns remédios, mas finalmente já ninguém dava nada por ele, ele ficou bem. Ficou bem, reconstruiu a vida, arranjou uma namorada enfermeira, foi passear até o Algarve. Parou o carro na estrada, ia comprar um maço de cigarros, abriu a porta do carro e foi atropelado por um condutor embriagado.

Eu conto esta história muitas vezes. Penso é que…aquele doente (não vou dizer o nome) teve ali uns três, quatro meses de felicidade. E depois morreu porque o outro doente o atropelou…do…pessoa que estava com álcool. É uma…é um desatino do destino.

Fernando Alves: Uma história triste contada por quem está habituado a trabalhar em situações limite.

Margarida Neto: eu trabalho naquele fim de linha em que as mulheres normalmente chegam lá e dizem: “deixo-o aqui, ou o álcool ou eu. E ele tem de decidir entre o álcool ou os filhos dele ou eu. É a última oportunidade que lhe dou”. Eu vivo isto todos os dias.

Fernando Alves: E qual é o desfecho mais frequente nessas situações?

Margarida Neto: Muitas vezes estas mulheres são ajudadas a manter isto. Porque é muito importante que os doentes percebam o que é que perdem. Ninguém se trata, ninguém muda um hábito deste tamanho, que é uma prisão do álcool, sem perceber que perde tudo.

E muitas vezes é preciso perder para reencontrar, não é? É o que nós dizemos chegar ao fundo do poço. E isto é uma das durezas de tratar um doente alcoólico. Muitas vezes nós temos de fazer uma caminhada no sentido de perceber que ele vai entrar no fundo do poço, mas se calhar tem que entrar para poder sair de lá. Isto é válido para os doentes como é válido para as famílias.

Fernando Alves: As famílias estão no centro do trabalho cívico de Margarida Neto, até no plano de acção política ou em cargos institucionais que desempenhou.

Margarida Neto: Eu digo sempre quando as Torres Gémeas caíram e se foi ver os telefonemas que as pessoas fizeram nessa altura em que perceberam que iam morrer; não telefonaram para o patrão, nem telefonaram para o gerente de conta, não é? Telefonaram para as famílias, dizendo: “amo-te”, “cuida dos meus filhos”, “vou amar-te sempre”...qualquer coisa que deu sentido naquele momento à vida para trás. Portanto, a família, nem é um valor…é…é onde nós chegámos à vida, nós chegámos à vida, normalmente numa família e é na família que nos construímos como pessoas e aprendemos os instrumentos básicos para enfrentarmos a vida e depois construir outra família.

Ao longo destes anos, sou terapeuta familiar, tenho uma formação em Terapia de Família, em Terapia Conjugal e depois pedem-me sempre muitas coisas… para falar… para palestras, conferências sobre a Família. E houve uma altura em que desempenhei um cargo político, fui Coordenadora Nacional para os Assuntos da Família, entre 2003 e 2005, na altura do governo de Durão Barroso.

E a questão que eu ponho sempre, tenho posto sempre é: como é que aquilo que é considerado o valor mais importante da nossa vida, a preocupação maior do nosso quotidiano, que é sair de casa e chegar a casa e cuidar dos que lá estão, como é que a política não trata também disto? Ou porque é que a política não se interessa também por isto?

Fernando Alves: A política não se interessa por isso?

Margarida Neto: Os programas dos partidos políticos não põem a família lá, é muito raro que o ponham, ou então põem assim numas margens pequeninas para ter alguns votos dalgumas pessoas, não é?

Fernando Alves: Na Fiscalidade, sim.

Margarida Neto: A fiscalidade é construída quase, parece, contra a família. Mas na nossa prática quotidiana dos Municípios, que é uma...tenho andado a fazer formação aos Municípios, há tantas práticas que podem fazer a diferença entre aquilo que é a realidade da vida das pessoas. Portanto, ou a política é construída para a realidade dos quotidianos, não é? Para um casal que vive junto, que se casa, que tem os filhos pequenos, que leva os filhos para a escola, que crescem. 

Há um ciclo de vida, que é a nossa vida do quotidiano e a política se só pensa na economia e nas finanças, afasta-se completamente da vida real das pessoas. Portanto temos mesmo que falar mais de política e de políticas públicas para a família, que não se trata de substituir a família, mas que se trata de ajudar as famílias a desempenharem as suas tarefas.

Fernando Alves: A bandeira da família foi uma das que Margarida Neto ergueu nas campanhas do MEP de que foi dirigente.

Margarida Neto: Nós tentámos soltarmo-nos da discussão clássica de Direita-Esquerda, não ignorando que existe uma direita e uma esquerda, mas posicionando-nos ao centro, com ideias mistas entre…conservando alguns valores…e os da família são importantes…mas ao mesmo tempo também com ideias muito claras sobre justiça social, sobre coesão, sobre não deixar ficar ninguém para trás.

Nesta visão, a visão do Movimento de Esperança Portugal, foi sempre a de que nós devíamos ter uma visão Famílio-Centrica, e portanto tentando que as políticas fossem construídas a favor da família. E tendo como particular preocupação (a crise avizinhava-se e já se vivia) que a solidariedade tivesse a família como resposta.

Fernando Alves: E quanto ao trabalho do observatório a que pertence junto das Autarquias, extinguindo aquelas que define como autarquias familiarmente responsáveis, está-se numa fase em que os Municípios partilham experiências.

Margarida Neto: Trocando ideias e práticas sobre a família, que vai desde a tarifa familiar da água, até ao cartão de família para os transportes, até ao usufruir da cultura, do desporto em conjunto, até a práticas da natalidade, de aumento da natalidade, às questões da formação familiar, às questões da formação parental, às questões do apoia às situações de vulnerabilidade social.
Portanto há aqui uma diferença muito grande entre as políticas de família, (não são politicas assistenciais) portanto as políticas assistenciais são para famílias em situação de vulnerabilidade e risco. Pela pobreza, pelo desemprego, pela falta de habitação, pelas situações difíceis.

As políticas de família são para todas as famílias; todas as famílias precisam de políticas que lhes sejam apropriadas. Depois dentro destas há as políticas para as famílias mais frágeis. Portanto tem sido muito interessante este caminhar pelo país. Estive há pouco tempo em Vila de Rei, agora em Póvoa de Lanhoso e essencialmente as pessoas, (demos alguma informação sobre o que são estas políticas de proximidade, porque os Municípios têm esta sorte de estar próximo das pessoas, são politicas muito mais humanizadas, com rosto, é o sr. Silva, o sr. António do fundo da rua, as pessoas sabem o que estão a fazer).

E uma …uma coisa muito interessante, é que, é ao contrário, às vezes podemos pensar que o poder central influencia os Municípios, eu acho que os Municípios podem influenciar o poder central. A qualidade do que se faz, em proximidade, aquilo que é eficaz e que é transformador para a vida das famílias pode contagiar o poder central. E aí haver políticas públicas mais centrais de diferente aspecto. Nós escolhemos: ter um governo amigo da família, um Município amigo da família, um trabalho amigo da família, uma empresa amiga da família, com responsabilidade social e familiar ou então vivemos pior, não é?

Fernando Alves: Outra frente de intervenção cívica da psiquiatra Margarida Neto, os GEPE, Grupo de Entreajuda à Procura de Emprego.

Margarida Neto: São grupos que estão disseminados no país, de desempregados. Portanto tem sido uma experiência extraordinária, desde Abril que animo um grupo destes. Portanto com 10, 8, 10 desempregados e cujo objectivo é…é um grupo de entreajuda, não é? Não preciso ser psiquiatra para estar neste grupo, preciso ter algumas condições de pôr as pessoas a falarem.

E as pessoas não faltam a este grupo, consideram que é um ponto fulcral na semana. Chegam ao grupo, dizem o que é que se está a passar nas suas vidas, as suas dificuldades, o que é que encontraram, a que entrevistas foram, como é que estão as vidas delas. E há um objectivo muito interessante no GEPE, que é cada elemento do GEPE procura trabalho para os outros. Portanto há várias profissões…

Fernando Alves: O que está desempregado procura trabalho para os outros?

Margarida Neto: Não, não, não. O que está desempregado, deixa de olhar só para si na sua procura de trabalho e alarga o seu horizonte, procurando também o que os outros também precisam. Portanto é isto o que se chama entreajuda. Portanto há uma entreajuda emocional sobre o quotidiano; as pessoas sentem-se acompanhadas por aqueles que têm o mesmo problema que elas têm. E há de facto uma entreajuda na…no fazer do currículo, na carta de apresentação, coisas de detalhe, como é que se vai vestir para uma entrevista, o que é que um já fez, a que sítios de formação tem ido, que cursos mais precisa de fazer…

Fernando Alves: E isso tem trazido resultados, não apenas nos níveis de auto-estima?

Margarida Neto: No meu grupo desde Abril mais de 10 pessoas já arranjaram trabalho. Por esta entreajuda. Evidentemente que sentirem-se acompanhadas, menos sós em casa, com o objectivo de saírem e encontrar um grupo de pessoas que sente a mesma situação em que estão, faz com que a pessoa não desmoralize.

Fernando Alves: Também a memória não desmoralizou. 20 anos depois de ter chegado às água de Timor a bordo do Lusitana Expresso, Margarida Neto, regressou a Díli.

Margarida Neto: Gosto muito que no final da nossa conversa exista aqui a marca do Lusitana Expresso. Há 20 anos fui no barco, em torno de uma ideia quase que romântica de contribuir para que o mundo acordasse para a questão de Timor, (foi sempre para mim duvidoso que tivesse sido útil ou não) e 20 anos depois o governo de Timor convida algumas pessoas do barco…que foram no barco (Eu era a chefe de equipa médica), para retornar a Timor ou ir a Timor, entretanto eu nestes 20 anos fui lá também fazer formação em relação à família.

Mas 20 anos depois o governo Timorense convidou-nos agora em Novembro para finalmente ir pôr as flores no Cemitério de Sta. Cruz. Quem me conhece sabe que o Lusitana Expresso é uma marca da minha vida, tem também muito a ver comigo, com a minha amizade com o Rui Marques, de contribuir para o acordar de um problema. Contribuir não de fora, não sentada num sofá, mas contribuir como cidadã para a resolução do mesmo.

Quando agora chegamos a Timor e vimos como os timorenses nos agradeceram e disseram que da história deles fazia parte o Lusitana Expresso e que isso tinha contribuído para não perder a esperança. Eles que estavam abandonados por todos, pelos nossos deputados, por toda a gente e acreditar que um barco de estudantes vinha lá ao longe, vinha com a bandeira “acreditamos que Timor pode ser independente” e acordar para o sofrimento daquele povo, foi de facto absolutamente extraordinário.

Eu acho que percebi que uma missão que tinha sido feita há 20 anos tinha sido verdadeira. E agradeço esta possibilidade…não me esqueço de ter ido ao cemitério, levávamos uma coroa de flores (não era a mesma de há 20 anos atrás, com certeza), mas foi muito comovente atravessar as campas do cemitério (só quem conhece o cemitério de Sta. Cruz percebe o que eu estou a dizer, aquilo é uma anarquia de campas, temos que subir por elas, pôr os pés enfim…) até chegar á campa do Sebastião Gomes e depositar a coroa.

Em nome de todos os que foram no barco, em nome da juventude que acredita, em nome do povo que se tornou independente e talvez o tornar-se independente seja a parte mais fácil desta história de Timor, porque o desafio que têm agora é o desafio do desenvolvimento, o desafio da paz, o do desenvolvimento e da prosperidade económica e social.

Fernando Alves: Um desafio imenso mas apetecível, assim o entende a psiquiatra Margarida Neto, a quem os desafios de intervenção cívica têm ajudado a prescrever as mais consistentes receitas de vida.


Transcrição: Lúcia

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NOTICIAS SOBRE A RESISTÊNCIA TURCA

No primeiro dia de Junho, depois de terem mandado lixar a troika, algumas dezenas de estudantes turcos a residir em Portugal juntaram-se na Avenida dos Aliados, no Porto, para apoiar os compatriotas. Dezenas de milhares de turcos têm protestado, ao longo da última semana, em Ancara e Istambul, contra o Governo de Recep Taiyyip Erdogan. Em causa está não só a decisão de construção um centro comercial no parque Gezi, mas também (ou sobretudo) um enorme descontentamento com a política de Erdogan, marcada pelo conservadorismo e pelo entusiasmo por grandes obras públicas consideradas fracturantes. O P3 quis ouvir jovens que conhecem a realidade turca e perceber qual é a perspectiva que têm sobre o conflito. Ideologias à parte, no final, a mensagem foi só uma: o povo está unido contra a violência e pela democracia.

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