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Monday, March 21, 2016

RECEITAS DE VIDA----MANUELA CRESPO ENTREVISTADA POR FERNANDO ALVES






RECEITAS DE VIDA----MANUELA CRESPO

Fernando Alves: Manuela Crespo é Neurologista no Hospital do SAMS em Lisboa e desenvolve ainda a actividade clínica noutros locais da capital, com consultas de dor crónica e de esclerose múltipla. Mas há muito tempo que se vem interessando por arte e há mais de 10 anos resgatou os cursos de Introdução À História Da Arte, História Da Arte Do Século XX e História Da Arte Portuguesa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, onde fez também o curso de Desenho e de Cor. É autora e ilustradora de livros infantis, o mais recente deles,  “O Imaginão” editado pela Ambar.

Ao longo da conversa tivemos sempre a companhia da cadela Pepa, que aqui e além há-de dar sinal de presença, embora discretamente. Pepa ainda não entrou em nenhuma história escrita e ilustrada por Manuela, mas agora vamos à história de Manuela. Manuela Crespo despertou ainda em menina para o que viria a ser a sua ocupação principal.

 Manuela Crespo: Desde que me lembro que sempre quis ser médica, de pequenina. E portanto trabalhei para isso e lá segui o meu caminho. E só na faculdade é que… me apercebi que me interessava por neurologia.

Aliás só depois de fazer a cadeira é que me entusiasmei por neurologia, porque tem um amplo potencial de investigação e explora uma série de… de temas misteriosos relacionados com a mente, que me interessaram muito, nomeadamente os mecanismos da linguagem que eu trabalhei uma data de anos no…muito próxima do laboratório de linguagem, não directamente mas envolvida com muitos doentes com perturbações das funções cognitivas superiores, que envolvem não só os problemas da linguagem como muitas outras… patologias que são bastante misteriosas.

Pessoas que… não vêem, por exemplo, o lado direito, ou o lado esquerdo do mundo, só prestam atenção nos lados e pessoas que não reconhecem faces familiares. Portanto são símbolos neurológicos estranhos que não são conhecidos do público em geral e que para nós são muito interessantes do ponto de vista… mental.

Fernando Alves: Usou a palavra mistério a propósito de neurologia mas esse mistério não é incompatível com o dicionário científico?

Manuela Crespo: O misterioso é sempre uma coisa muito atractiva para as pessoas curiosas. Eu sou uma pessoa curiosa, portanto tudo o que é estranho e difícil de explicar me atrai. E a neurologia foi a chama… que se acendeu. Foi exactamente a parte misteriosa do cérebro que ainda há muito por explorar e é uma ciência que é encantadora.

Fernando Alves: E como é que foi percorrendo esses corredores entre a investigação e a clínica?

Manuela Crespo: Eu comecei a trabalhar em investigação ainda no 5º ano da faculdade. Tive um bom tutor que foi o professor José Ferro no Hospital de Sta. Maria, com quem fiz a cadeira de neurologia e que no final gostou de mim e convidou-me para trabalhar com ele… e portanto ainda no 5º ano de faculdade comecei a trabalhar no Laboratório de Linguagem e ajudei a montar a consulta de doenças Vasculares Cerebrais, em Sta. Maria, que se iniciou nessa altura. E portanto a partir daí tive um conhecimento da neurologia também dado por um dos nossos…talvez o maior neurologista do país.

Fernando Alves: Para Manuela Crespo isso foi uma bênção…

Manuela Crespo: Sim, sim, fascinante. Completamente fascinante. E… ainda hoje para mim neurologia é fascinante…não deixou de ser. Eu continuo a ser uma médica muito interessada no que faço, adoro trilhar caminhos novos…portanto tenho alguma necessidade, de vez em quando, de estabelecer novas direcções, até porque a vida profissional nem sempre se adapta àquilo que a gente quer fazer…e ainda hoje, adoro o que faço. Já não faço investigação, faço só clínica e foi uma decisão por razões pessoais e porque mudei de emprego entretanto… e as condições que se geraram não permitiram que eu continuasse a fazer investigação. Mas foi uma fase muito interessante da minha vida.

Fernando Alves: Mas regressemos a esse Laboratório de Linguagem de que falou. O que é que se passa num Laboratório de Linguagem?

Manuela Crespo: O Laboratório de Linguagem avalia doentes que têm perturbações das funções cognitivas superiores. Não só da linguagem, mas também da escrita, da leitura, da percepção…portanto há algumas alterações da percepção visual, por exemplo, em que as pessoas deixam de reconhecer as cores… ou não conseguem dizer os nomes das cores, ou não reconhecem pessoas… familiares em fotografias, só as conhecem quando elas falam…portanto têm que usar outras…outros elementos para além da visão, para fazer o reconhecimento. Portanto…tudo o que sejam alterações das funções cognitivas, estudam-se num Laboratório de Linguagem.

Os acidentes vasculares dão muito frequentemente, perturbações da linguagem e penso que o Laboratório de Linguagem se dedicou basicamente ao estudo dos doentes com acidentes vasculares na fase inicial e talvez por isso tenha ficado com esse nome. Mas no fundo o que se estuda ali são as funções cognitivas superiores, não só a linguagem.

Fernando Alves: O…como diz a neurologista Manuela Crespo, a chave da conotação semântica, daquilo que ouvimos está numa caixinha especial.

Manuela Crespo: Nós temos uma caixinha da semântica, dentro da nossa cabeça com a qual vamos comparar as palavras que ouvimos e…e é assim que elas fazem sentido para nós. Se tivermos um acidente vascular que estrague essa caixinha da semântica já não conseguimos compreender o que estamos a ouvir.

Fernando Alves: E o que é que pode acontecer a um doente que teve um acidente vascular cerebral?

Manuela Crespo: O doente pode não falar de todo…não é?...não ser capaz de programar as palavras, a sua área de programação motora da linguagem está avariada,  ou pode não compreender a linguagem que ouve. É como se eu estivesse a falar em chinês consigo. O sr. ouve, mas não compreende, porque não tem lá dentro a tal caixinha da semântica que lhe permite identificar aquilo que está a ouvir e dar-lhe um sentido e também pode acontecer que não haja uma ligação entre essa caixinha da semântica e a área da programação motora portanto, essa ligação permite-lhe repetir…quer dizer…consegue repetir uma frase em chinês sem saber o que ela quer dizer.

Essa ligação entre as duas áreas chama-se a repetição. Exactamente… também pode estar avariada nos doentes com acidentes vasculares e portanto temos quatro funções que nós avaliamos na área da linguagem que são:

A nomeação dos objectos (que também temos uma área especifica para isso).

A fluência do discurso: que inclui desde a melodia a uma série de outras características que nos permitem dizer que…por exemplo a linguagem portuguesa tem um discurso próprio, que as pessoas podem perder só… essa…essa melodia que se chama prosódia…ou podem por exemplo não ser capaz de falar com uma fluência normal, falarem por exemplo, como um robot ou eventualmente também podem perder a capacidade de compreender a linguagem ouvida. Portanto não cumprem ordens não conseguem perceber nada do que nós dissermos se não usarmos gestos, mimica facial para ajudar, que é um dos factores que ajuda a descodificar a linguagem falada.

Fernando Alves: Mas quase nunca é pela linguagem que se inicia a perturbação…?

Manuela Crespo: Em casos muito raros ou pelo menos mais raros de demências, que se chamam Afasias Progressivas Primárias é que o distúrbio começa pela linguagem. Habitualmente começa com um defeito de memória. Agora nos acidentes vasculares, a linguagem pode ser, ou não envolvida, não é obrigatório. Mas se envolver a área de linguagem que fica no hemisfério esquerdo…é uma área que existe só de um lado, pelo menos nas pessoas dextras, a linguagem é frequentemente afectada.

Fernando Alves: Mas pode acontecer que não seja afectada?

Manuela Crespo: Pode acontecer que não seja, sim… As pessoas podem ter só falta de força, ou falta de visão, ou falta de sensibilidade, dependendo do hemisfério que é atingido.

Fernando Alves: E essa desatenção ao lado esquerdo do mundo é muito frequente?

Manuela Crespo: É frequente quando as pessoas têm lesões de hemisfério direito. O hemisfério direito é mais responsável pela orientação…pela localização do espaço, digamos assim e pela atenção e portanto o que acontece a esses doentes é que deixam de prestar atenção ao lado esquerdo do espaço e mesmo quando nós os chamamos eles viram sempre a cabeça para o lado direito. Não prestam atenção ao lado esquerdo. E muitas vezes nem sequer reconhecem…por exemplo se tiverem ao mesmo tempo uma paralisia dos membros esquerdos, esses doentes têm pior prognóstico na recuperação, porque como não prestam atenção aos seus membros, também não percebem que eles estão paralisados; portanto é uma negação do defeito muita vezes associada… o que vai agravar a recuperação.

Fernando Alves: A cadela Pepa há-de manifestar-se e chegará a dar até umas patadas no fio do microfone, talvez espantada com as perguntas que tratam de saber se no consultório do neurologista ainda surgem quadros desconhecidos ou se o quadro está já esgotado.

Manuela Crespo: Nem pensar. Nunca está esgotado. Nós temos… todos os dias desafios…sempre. Eu faço clínica e faço clínica hospitalar. Portanto eu também tenho um percurso diferente da maior parte dos neurologistas, que a partir de uma determinada fase subespecializam-se e passam a ver só uma determinada faceta da neurologia. Eu fiz isso na minha fase inicial… da vida como neurologista.

Portanto tive uma subespecialização muito intensiva, que foi em acidentes vasculares cerebrais e depois, quando me mudei para outro hospital passei a ser uma neurologista geral que, ainda por cima, tem metade do seu tempo ocupado com doentes agudos. E portanto vejo muita coisa diferente, os doentes agudos trazem-nos sempre muitas surpresas.

Fernando Alves: E às vezes essas surpresas tiram o sono ao neurologista.

Manuela Crespo: Estou-me a recordar de um homem jovem que tive lá internado no meu hospital há uns tempos atrás. Tinha penso que… 31 anos com uma dor de cabeça completamente fora de tudo o que vem nos livros, acompanhados por sintomas que mudavam de sítio como se fosse uma coisa quase ansiedade…mas que depois nos exames complementares tinha uma série de…de alterações que… eram bastante específicos de haver uma doença do sistema nervoso central em evolução que eu nunca soube o que era. Esse doente tinha um aumento de células no líquido encéfalo-raquidiano e tinha uma dor de cabeça que aparecia e desaparecia como se fosse uma enxaqueca.

Depois de muito batalhar na procura da causa (ele fez N exames, tudo o resto era normal mas aquilo não passava de maneira nenhuma) e de conferenciar com alguns colegas, nomeadamente com um colega meu do Sta. Maria, que era o dr. João de Sá, que tinha tido uns doentes parecidos, acabei por decidir fazer um tratamento bastante agressivo, um Citostático, que me custou imenso começar a fazer, porque ele era um homem novo, eu ia…tinha medo de o estragar, não é?

Fernando Alves: Qual era o grau de agressividade…em que é que se traduzia essa agressividade do medicamento?

Manuela Crespo: Os citostáticos são os medicamentos que nós usamos no tratamento do cancro, que têm efeitos acessórios que podem ser graves, não é?… nomeadamente a longo prazo podem aumentar o risco de novos…de neoplasias e de tumores noutros sítios.

Fernando Alves: Mas não hesitou…?

Manuela Crespo: Hesitei muito. Hesitei muito mas, quer dizer, não tinha outra alternativa e portanto acabei mesmo por lhe fazer o tratamento…e ele ficou bom! Foi fantástico! Mas ainda hoje não lhe sei dizer que doença é que ele teve.
Fernando Alves: Sabe como é que o curou mas não sabe porque é que o curou?
Manuela Crespo: Exactamente. Nós às vezes temos de tomar essas decisões. Claro que é muito melhor tomar uma decisão de tratamento quando temos um diagnóstico definitivo. Quando não temos, às vezes temos de tomar decisões…porque não podemos deixar os doentes morrer, só porque não fazemos um diagnóstico, temos caminhos, não é? É uma doença inflamatória… é uma doença infecciosa… uma doença neoplásica… tomamos o caminho daquela doença, sem ter um diagnóstico exactamente definido.

Fernando Alves: Li há dias uma notícia, com dados de 2010, que assegurava que uma em cada quatro crianças que chega à consulta de neurologia infantil de Sta. Maria, sofre de dores de cabeça. Manuela Crespo não é neurologista infantil, mas confirma que quase tudo começa pela dor de cabeça.

Manuela Crespo: Hoje em dia praticamente…sei lá… 70% da população tem dores de cabeça frequentes… quanto mais ansiosas e tensas as pessoas estão, maior é a frequência das dores de cabeça.

Fernando Alves: a dor de cabeça é um sintoma do tempo também? Deste tempo que vivemos?

Manuela Crespo: A dor de cabeça de tensão muscular é um sintoma dos tempos que vivemos. Hoje penso que o povo português anda todo um pouco mais ansioso, mais tenso e as pessoas que não conseguem descontrair-se têm tendência a contrair grupos musculares específicos e em alguns casos os músculos à volta do crâneo, (nós temos uma camada muito fininha de músculos à volta do crâneo que quando está tensa, dá dores de cabeça… diárias).

Fernando Alves: A expressão popular:  “isto vai dar-me grandes dores de cabeça” faz, nesse caso, todo o sentido.

Manuela Crespo: Faz todo o sentido. Eu uso muito, essas expressões populares para explicar às pessoas o que elas têm. E as fazer relacionar os seus sintomas com o estado emocional em que  se encontram, isso é…é bastante importante para os doentes perceberem…é meio caminho andado para a cura… é o doente perceber porque é que tem dores de cabeça.

Fernando Alves: E como é que se percebe que aquela dor de cabeça é um poço sem fundo?

Manuela Crespo: Nós temos regras para separar as águas, não é? Portanto, geralmente há uma regra básica que é… uma dor de cabeça crónica raramente tem um problema grave por trás. As dores de cabeça de início recente é que nos preocupam. As pessoas que têm dores de cabeça crónicas, têm uma patologia…que já existe há muitos anos, portanto tudo o que existe dentro da cabeça…que dá problemas, dá problemas rapidamente.

Isto é uma caixa fechada, não expande não é? Portanto se as pessoas tiverem um tumor, ou tiverem uma lesão que está a crescer…rapidamente a dor de cabeça passa a outra sintomatologia. E portanto as dores de cabeça que têm mais de 6 meses não nos preocupam.

Fernando Alves: O que é que a preocupa? São as dores de cabeça que surgem de repente em alguém que nunca teve dores de cabeça?

Manuela Crespo: Por exemplo, ou as dores de cabeça que começaram há pouco tempo, há 15 dias, um mês, principalmente as que aparecem logo de manhã, são dores de cabeça que nos preocupam e que obrigam a fazer uma investigação mais cuidada do doente e uma avaliação um bocadinho mais profunda.

As outras dores de cabeça, eu até raramente peço exames complementares. Acho que é muito mais importante conversar com o doente, perceber porque é que ele tem dores de cabeça, saber o que é faz, o que é que o faz ficar tenso, como é que é a vida dele e levar o doente a perceber isso. E organizar a sua vida um bocadinho em função da capacidade que tem, para a vida que tem.

Fernando Alves: A dor também está muito presente no seu trabalho diário?

Manuela Crespo: Agora está mais, porque eu faço consulta de dor. Já não tenho tanto a ver com neurologia, quer dizer…há uma parte que tem…portanto os neurologistas têm uma parte da consulta de dor importante que é uma dor neuropática. É uma dor que…praticamente…digamos, são mais os neurologistas que tratam. Têm mais treino com os medicamentos e etc.

Mas na nossa consulta de neurologia geral a dor ocupa um espaço enorme. Há uma percentagem muito grande de doentes que têm dores de cabeça e portanto faz parte do meu dia a dia…tratar dor. Eu neste momento faço a mesma consulta de dor mais geral, nomeadamente envolve doentes neoplásicos, com dor em fase terminal ou não, dores osteoarticulares de toda a qualidade, portanto são doentes com dor crónica.

Nós tratamos a dor como sintoma, não tratamos a causa da doença, portanto o doente em princípio já está diagnosticado, a sua doença está tratada o melhor possível e muitas vezes, apesar da doença estar controlada, não conseguimos eliminar a dor. Portanto a dor é tratada como uma doença aparte. Aliás, nós hoje sabemos que a dor crónica acaba por se tornar independente da causa…

Fernando Alves: Doença em si mesma…

Manuela Crespo: Exactamente. Passa a ser uma doença autónoma. Se não for tratada; crónica. Portanto é fundamental tratar a dor e prevenir a transição para a fase crónica. E é esse trabalho que eu faço na consulta de dor; onde uso os medicamentos mais potentes que existem, para tratar a dor, os OPIOIDES, que é uma área que eu nunca tive treino enquanto neurologista. Foi uma área a que me dediquei agora, recentemente e estou envolvida num grupo multidisciplinar que inclui mais dois anestesistas, um internista e uma enfermeira e fazemos uma consulta de dor (os cinco) que é bastante interessante, porque temos muita interactividade uns com os outros e estamos a fazer coisas novas…todos nós.

Fernando Alves: Mas no seu dia a dia trata acima de tudo da dor mais funda, da desolação que essa dor provoca. É uma dor silenciosa que atinge o doente e a família, o grupo de amigos.

Manuela Crespo: Às vezes a dor é mais devastadora para a família do que para o próprio paciente. E por exemplo na demência de Alzheimer que é uma…uma situação paradigmática do doente que vai perdendo as capacidades e que se vai deteriorando, mas ao mesmo tempo não tem crítica; portanto como tem defeito de memória, muitas vezes não se apercebe do que lhe está a acontecer, porque se esquece logo a seguir. E a certa altura perde a crítica e quem sofre mais de facto, são as famílias.

As famílias passam tormentos para darem conforto a estes doentes. E aí a verdadeira dor da alma…o doente que se esquece de forma patológica não se lembra que se esquece…para ele está tudo bem. Os doentes com demência de Alzheimer têm períodos de lucidez em que se deprimem, mas a maior parte do tempo não estão deprimidos, porque já perderam a crítica daquilo que lhes está a acontecer, não têm capacidade de se aperceber da sua própria deterioração.

Fernando Alves: A cadela Pepa ficou em silêncio, enquanto a neurologista Manuela Crespo fala da dor, mais ou menos silenciosa dos adultos que lhe entram pelo consultório. É outro, o modo como Manuela se ocupa das crianças. Pepa vem agora para mais perto da mesa, porque Manuela Crespo começa a folhear os livros que escreveu e ilustrou. Entra em cena a médica que receitou a si mesma o estudo da História da Arte.

Manuela Crespo: Eu sempre tive atracção pela arte. E aliás, os livros infantis surgiram através da pintura. Eu primeiro interessei-me pela pintura, pela História da arte, fiz alguns cursos de História da arte na Sociedade Nacional de Belas Artes, depois inscrevi-me num curso de desenho lá. E à medida que fui trabalhando no desenho, (e aquilo é um curso que apesar de ser uma ou duas vezes por semana em horário pós laboral, é bastante intensivo, porque os professores exigem de nós quase um profissionalismo, trabalhos de casa nós vamos desenvolvendo uma linguagem nossa) eu a certa altura do meu percurso percebi que a minha pintura se adaptava muito bem à ilustração infantil.

E portanto comecei a ter alguma apetência e ao mesmo tempo a estudar os trabalhos dos ilustradores portugueses, que nós temos ilustradores fantásticos, temos imensa qualidade em termos de ilustração principalmente ilustração infantil em Portugal e comecei-me a entusiasmar pela ilustração infantil. Portanto o meu caminho não teve muito a ver com as crianças mas sim com a própria arte.

Foi o caminho que eu criei na minha arte. E à medida que fui desenvolvendo essa tendência para a ilustração infantil, porque a minha pintura é muito colorida, eu sou muito…sistematizo um bocadinho as formas, portanto não sou muito dada ao detalhe, gosto mais de inventar do que de copiar; desenho à vista. Acho que não tenho jeito para o desenho à vista, o que eu tenho jeito é para…depois daquilo que aprendi, que me permite construir por exemplo…uma imagem de uma pessoa, transformar isso num mundo de fantasia
.
Fernando Alves: O fascínio pelo mundo da fantasia, explica que Manuela Crespo fale com entusiasmo dos 4 livros que escreveu e ilustrou. Num deles, “O Abecedário dos Nomes”, há 80 histórias de meninos (alguns deles doentes) por ordem alfabética.

Manuela Crespo: Para os meninos poderem escolher uma história com o seu nome, que é uma coisa que todos gostam de fazer, e muitas destas histórias são sobre meninos que tiveram problemas médicos. Alguns que tinham…por exemplo…que não conseguiam comer, que tinham um nó no estômago e só se… curavam quando iam ao médico…lhes desatava o nó e depois eles comiam tanto que já não cabiam na história.

Fernando Alves: Mas esse nó no estômago é um faz de conta, é só delírio, ou desata-se com receitas médicas?

Manuela Crespo: É só delírio. É só delírio puro. Como, por exemplo, também tenho uma história sobre o autismo. Tive alguma preocupação em falar de algumas doenças que as crianças conhecem, por exemplo, da escola… de outros meninos e que talvez não compreendam. E tentei explicar também de uma forma poética e fantasiosa o que era, por exemplo, o autismo.

Eu inventei aqui um menino que é o Ricardo, que tinha pássaros dentro da cabeça e não conseguia olhar para o mundo exterior porque, estava sempre a ouvir os pássaros e encantava-se com eles e portanto a atenção dele estava toda virada para dentro. E logo esse menino não conseguia comunicar com os outros meninos, nem brincar com eles porque, estava sempre a olhar para dentro. E o irmão dele, que queria ser médico quando fosse grande, um dia resolveu investigar o que é que se passava com o irmão e foi-lhe espreitar pelos olhos (porque os olhos são as janelas da nossa alma, assim digamos) e viu que ele tinha pássaros dentro da cabeça. Então pediu a um doutor já muito conhecido que ajudasse a libertar o irmão da sua doença.

Fernando Alves: Mas em nenhum momento a autora Manuela Crespo, usa os procedimentos ou as soluções que a médica adoptaria para aquela doença.

Manuela Crespo: Às vezes…isto é um pouco mais só para as crianças terem contacto com o mundo das doenças. Não é um livro só sobre doenças. Eu não tenho tantas histórias assim sobre doenças, mas tenho…sei lá…umas 7 ou 8 que falam de problemas médicos, com os quais as crianças já lidaram, sem se calhar pensarem muito nelas e quando lerem estas histórias voltam a pensar.

Fernando Alves: Há dores de cabeça?

Manuela Crespo: Por acaso não me lembro…acho que não…acho que dores de cabeça não. Tenho mais crianças com, problemas…tenho uma história com defeito de memória. Que é uma menina que se esquece e a mãe também se esquece. A mãe esquece-se de ir buscar a menina à escola e ela esquece-se da pasta e depois volta atrás, portanto que é uma homenagem aos doentes de Alzheimer que têm defeito de memória. Existem algumas histórias com as comidas, todas as crianças têm problemas com a alimentação não é?... e meninos que não querem comer…e que têm uma serie de problemas, mas por acaso penso que com as dores de cabeça, que não…

Fernando Alves: Manuela Crespo defende que os livros infantis, devem ter uma mensagem, mas que ela não tem que ser moralizadora.

Manuela Crespo: De maneira nenhuma. Eu acho que a parte lúdica dos livros é fundamental e se ao mesmo tempo pudermos transmitir alguma mensagem, fantástico. Mas eu francamente…aquilo que me moveu a escrever os livros foi o prazer de os escrever. Tive um prazer enorme em escrever e ilustrar estes livros. Foi uma…uma aventura para mim. Foi uma coisa nova…um desafio e… foi fantástico.

A partir de uma determinada fase comecei a preocupar-me em transmitir alguma mensagem, às crianças e em fazer esta ponte com a medicina. E eu aliás tenho muitas histórias escritas que não estão publicadas, porque depois não tenho tempo para as ilustrar, porque eu escrevo histórias muito depressa e levo meses a ilustrá-las.

E portanto eu tenho muitas histórias escritas e não tenho muitas ilustradas. Enfim…tenho mais uma ou duas que estão publicadas e ilustradas mas não…não partilhei ainda para a sua publicação. E tenho uma história escrita sobre uma alegoria do corpo humano que seria um prédio em que …(voltamos outra vez à neurologia, não é…) em que por exemplo, o elevador é a coluna vertebral com a sua medula, os carros serão os nervos que nos permitem mover as pernas e os braços, eles depois têm  duas janelas lá encima muito grandes  que são os olhos que permitem depois o registo das imagens e portanto tudo pode acontecer. Temos uma sala cheia de pessoas que falam, outra cheia de pessoas que percebem, outras que armazenam a informação e por aí fora…

Fernando Alves: Por aí fora, porque é um filão sem limites. Tomemos o mais recente livro de Manuela Crespo “O Imaginão”.

Manuela Crespo: Este livro é uma história sobre a amizade. Que é um tema que sempre me preocupou muito e que na altura em que eu escrevi este livro me obcecava. Isto é sobre um menino que tem muita imaginação e que consegue que tudo o que ele imagina aconteça. E que vive rodeado de reis maus que querem roubar aquilo que ele tem, que é a imaginação e a criatividade que eles não conseguem ter.

 Este rei menino tem uma grande amiga que é uma ovelha, que vive com ele num quadradinho de terra.

São os dois muito felizes, passam o tempo todo a imaginar coisas, como piscinas e tudo o que seja de bom e ele foi visar essas coisas com os outros reis á volta deles. Estes reis tomados de inveja, resolvem roubar a ovelha. E então o menino corre o mundo atrás dessa ovelha (corre o mundo inclui o Universo), passa pelo Universo, torna-se amigo das estrelas, que o ajudam na sua procura (e ao mesmo tempo aproveitamos para ensinar aos meninos que as estrelas sempre guiaram os Homens) e depois finalmente consegue chegar com a ajuda de vários elementos que aparecem na história (animais habitualmente),consegue chegar e descobrir que a sua ovelha está misturada com todas as outras ovelhas do mundo, para não ser encontrada.

Mas ele com os olhos do coração descobre a sua ovelha e ficam felizes outra vez. E os reis maus, que tentaram castigá-lo, depois de lhe mandarem uma serie de pragas e…acabam por perceber que o que é importante não é a criatividade, mas sim a amizade. A amizade é que conta e que, acabam por adoptar um padrão de vida mais saudável. Portanto esta história tem uma mensagem para as crianças, que é dizer-lhes que a amizade é que é importante e que tudo o que parece brilhar às vezes não é ouro.

Fernando Alves: Manuela Crespo lê agora um dos textos do livro “Abecedário Dos Nomes”: “Histórias Sem Pés Nem Cabeça”.

Manuela Crespo: “ A Ana”

“ A Ana era um bocadinho distraída, tinha sempre a cabeça noutro lugar. É o que se chama uma verdadeira cabeça de vento. Esquecia-se de tudo, porque nunca estava a pensar no que estava a fazer. Estava sempre na lua. E o pior de tudo é que a própria Ana não se lembrava que se esquecia. A mãe que era esquecida como a filha enchia-a de papelinhos com recados escritos e a Ana de imediato os perdia. Um dia a Ana foi para a escola, esqueceu-se da pasta e ficou de castigo, teve de escrever 500 vezes “não me posso esquecer da pasta”. Estava tão entretida que se esqueceu de voltar para casa. A mãe ficou aflita, mas depois lembrou-se de como a filha era esquecida e então, esqueceu-se da sua preocupação e foi busca-la à escola. No caminho para casa esqueceu-se de ralhar à Ana. Na verdade já se tinha esquecido que também ela era esquecida.”

Fernando Alves: não nos esqueceremos desta história, pois não Pepa?

Transcrição: Lúcia




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No primeiro dia de Junho, depois de terem mandado lixar a troika, algumas dezenas de estudantes turcos a residir em Portugal juntaram-se na Avenida dos Aliados, no Porto, para apoiar os compatriotas. Dezenas de milhares de turcos têm protestado, ao longo da última semana, em Ancara e Istambul, contra o Governo de Recep Taiyyip Erdogan. Em causa está não só a decisão de construção um centro comercial no parque Gezi, mas também (ou sobretudo) um enorme descontentamento com a política de Erdogan, marcada pelo conservadorismo e pelo entusiasmo por grandes obras públicas consideradas fracturantes. O P3 quis ouvir jovens que conhecem a realidade turca e perceber qual é a perspectiva que têm sobre o conflito. Ideologias à parte, no final, a mensagem foi só uma: o povo está unido contra a violência e pela democracia.

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